A União Europeia se opôs publicamente na quinta-feira a qualquer proposta de cobrança de tarifas sobre navios que passam pelo Estreito de Ormuz, freando a recente declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o estabelecimento de um mecanismo de cobrança com o Irã. Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que a lei internacional garante a liberdade de navegação, o que significa que “não deve haver qualquer pagamento ou taxa”, e enfatizou que o Estreito de Ormuz, como uma via energética global crucial, deve retomar a passagem livre, segura e sem restrições.
Discrepância entre Trump e a Casa Branca
A controvérsia se acirrou rapidamente devido aos sinais conflitantes vindos de Washington. A Reuters relatou em 8 de abril que Trump sugeriu que os Estados Unidos e o Irã poderiam estabelecer algum tipo de "arranjo conjunto" para coletar tarifas de passagem; porém, a secretária de imprensa da Casa Branca, Levitt, posteriormente declarou claramente que a prioridade do presidente era restaurar o tráfego pelo Estreito de Ormuz "sem qualquer restrição", incluindo a não implementação de tarifas de passagem. Em 10 de abril, o próprio Trump advertiu ainda mais no Truth Social que, se o Irã realmente cobrar tarifas dos petroleiros, "melhor parar imediatamente". Essa mudança mostra que a Casa Branca está se direcionando de uma postura inicial de negociação para uma posição mais alinhada com a de seus aliados, focando na liberdade de navegação.
A posição legal da UE
Do ponto de vista da União Europeia, isso não se trata apenas de uma divergência política, mas também de uma questão de direito internacional. Uma declaração do Conselho da UE em 9 de abril afirmou que, de acordo com o direito internacional e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, a passagem livre e segura no Estreito de Ormuz deve ser garantida; o porta-voz da Comissão Europeia explicou ainda que "liberdade de navegação" em si significa que esse tipo de estreito internacional não pode se tornar uma via de cobrança. Também no mesmo dia, a Reuters citou a Organização Marítima Internacional dizendo que a cobrança de tarifas em estreitos internacionais criaria um “precedente perigoso”, já que a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar estipula que os países litorâneos de estreitos internacionais não devem obstruir ou suspender o direito de passagem em trânsito.
As cartas do Irã ainda no Estreito
A questão é que o controle real ainda está parcialmente nas mãos de Teerã. A Reuters relatou em 9 de abril que, apesar de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, o volume de tráfego no Estreito de Ormuz ainda não atingiu um décimo do nível normal; apenas sete navios passaram nas últimas 24 horas, e a Guarda Revolucionária do Irã ainda exige que os navios passem mais próximo às águas iranianas perto da ilha de Larak. O relatório também mencionou que a mídia continua a divulgar a possibilidade de o Irã cobrar tarifas dos navios de passagem, com algumas reportagens apontando um valor tão alto quanto dois milhões de dólares por navio. Em outras palavras, mesmo que o mecanismo de cobrança ainda não esteja totalmente formalizado, o Irã já transformou "quem pode passar, como passar e em que condições passar" em uma carta de negociação.
Impacto no mercado
Isso também explica porque o mercado não comprou totalmente o cessar-fogo. O Estreito de Ormuz transporta cerca de um quinto do petróleo bruto e gás natural liquefeito marítimo global, e qualquer arranjo restritivo significa custos de frete, seguro mais altos e um prêmio de risco político. A Reuters relatou em 10 de abril que os preços do petróleo subiram cerca de 1% naquele dia, acumulando um aumento de cerca de 50% desde o início da guerra; o Japão, por sua vez, está considerando liberar mais reservas de petróleo devido às tensões energéticas. Para a União Europeia, opor-se à cobrança não é apenas uma posição legal, mas também uma medida para evitar que o comércio global de energia incorra permanentemente em novos custos geopolíticos.