A empresa japonesa de automação industrial FANUC (FANUY) aumentou a receita em 18% e o lucro líquido em 35% no primeiro trimestre, mas a previsão para o conjunto do exercício aponta para um crescimento bastante mais moderado. A escassez de componentes atrasa a conversão de encomendas em vendas e eleva os custos, enquanto o investimento de capital deverá aumentar. Com o programa de recompra de ações já concluído, a ação também perde uma fonte potencial de procura no curto prazo. A automação industrial e a IA física sustentam a procura a longo prazo, mas o crescimento mais lento e uma avaliação elevada tornam mais exigentes as perspetivas operacionais e de mercado.
Robótica e CNC são o núcleo do negócio
Com sede no Japão e mais de 70 anos de atividade, a FANUC atua nos mercados de automação fabril, robótica e máquinas-ferramenta. A sua oferta inclui robôs industriais, robomáquinas, sistemas de controlo numérico computorizado (CNC), osciladores laser e produtos de controlo de movimento. A empresa dispõe ainda de 280 centros de assistência em todo o mundo.
A robótica e as robomáquinas são os principais segmentos de negócio, segundo a apresentação de resultados do primeiro trimestre. Os produtos de automação fabril representam perto de um quarto das vendas. Embora tenha sede no Japão, a FANUC depende sobretudo da China e das Américas, que, em conjunto, geram mais de metade da receita. Os resultados refletem, assim, não só o investimento mundial na indústria transformadora, mas também a procura e a evolução das cadeias de abastecimento nessas regiões.
Automação e IA física sustentam a procura a longo prazo
O envelhecimento da força de trabalho, o aumento dos custos laborais e o esforço das empresas para aproximarem as cadeias de abastecimento dos mercados de destino têm impulsionado a adoção de automação. A FANUC é há muito especializada em tecnologia CNC. Estimativas do setor apontam para uma quota de cerca de 50% a 65% do mercado mundial de CNC, sistemas utilizados em muitos equipamentos industriais e que dão à empresa exposição a uma procura recorrente.
A IA física é outro possível motor de crescimento para a robótica da FANUC. Uma investigação da Capgemini indica que cerca de oito em cada dez organizações em todo o mundo já começaram a explorar esta tecnologia. A empresa adotou uma abordagem de software relativamente padronizada, com produtos como módulos de IA física que os clientes ou integradores externos podem complementar com as suas próprias camadas de software, em vez de desenvolverem sistemas personalizados de raiz. Esta abordagem poderá reduzir as barreiras à implementação, mas o seu contributo para as receitas ainda está por demonstrar.
A FANUC não tem dívida, e o caixa e os investimentos negociáveis representam mais de 36% do ativo total. Historicamente, a empresa tem usado uma distribuição de pelo menos 60% do lucro líquido como referência para a remuneração dos acionistas. A regularidade dos dividendos é outro fator acompanhado pelos investidores.
Previsão anual fica aquém do crescimento do trimestre
O exercício fiscal da FANUC termina em março. Nos resultados mais recentes, relativos ao primeiro trimestre do exercício fiscal de 2027, a receita subiu 18% em termos homólogos e o lucro líquido avançou 35%. Ainda assim, a gestão prevê um crescimento da receita anual na casa dos dois dígitos baixos e um aumento do lucro líquido inferior a 19%. A previsão implica, portanto, um ritmo mais lento entre o segundo e o quarto trimestres.
As perspetivas para as margens também se deterioraram. A FANUC previa anteriormente que o custo das vendas correspondesse a 59,8% da receita; agora aponta para 60,8%. A revisão afasta-se da expectativa anterior de uma melhoria de quase 200 pontos base na margem bruta. A empresa afirma que continua a ser difícil obter componentes mecânicos, semicondutores e outras peças eletrónicas. Perante a incapacidade de alguns fornecedores principais para responder à procura, está a recorrer a fornecedores alternativos, cujas condições de compra poderão ser menos favoráveis ao controlo de custos.
A diferença entre o crescimento das encomendas e o das vendas é outro ponto a acompanhar. As encomendas dos clientes mantêm-se fortes, mas demoram mais tempo a transformar-se em receita. No segundo e no terceiro trimestres do exercício fiscal de 2025, os dois indicadores tinham evoluído a ritmos semelhantes. A FANUC afirma que a divergência é particularmente visível na China, onde alguns clientes passaram a optar por produtos concorrentes. Se os atrasos nas entregas persistirem, os próximos resultados mostrarão em que medida a carteira de encomendas se converte em vendas e se a situação afetou as relações com os clientes.
Câmbio e recompra influenciam o retorno dos acionistas
A FANUC apresenta resultados e paga dividendos em ienes. Por isso, os detentores de recibos de depósito americanos (ADR) também estão expostos à variação da taxa de câmbio entre o dólar e o iene. Para o orçamento relativo ao segundo, terceiro e quarto trimestres, a empresa usou uma premissa de 150 ienes por dólar. No período em análise, a cotação USD/JPY estava cerca de 5,5% acima desse valor e tinha subido quase 2% no mês anterior.
Um dólar mais forte altera o valor, em dólares, dos dividendos pagos em ienes. A FANUC costuma ter um intervalo de cerca de três meses entre a data de registo dos acionistas e o pagamento efetivo. As variações cambiais durante esse período podem, por isso, modificar o montante final recebido pelos titulares de ADR.
Os rendimentos históricos e projetados do dividendo da FANUC estão ambos abaixo da média histórica de 2,12%. A empresa também vinha a recomprar ações, mas concluiu antecipadamente o programa de recompra de 50 mil milhões de ienes, inicialmente previsto até ao final de abril de 2027. Com o programa encerrado, desaparece uma possível fonte de procura pelas ações no curto prazo. A gestão prevê ainda despesas de capital superiores às do exercício fiscal anterior. Se uma parcela maior do fluxo de caixa operacional for destinada a equipamentos e investimento, poderá haver menos margem para novas recompras.
Avaliação elevada e perda de força técnica
A FANUC negoceia a cerca de 30 vezes os lucros previstos, acima da média inferior a 26 vezes das empresas comparáveis de maquinaria industrial e muito acima das menos de 14 vezes do índice MSCI Japan Value. Apesar de integrar esse índice, a avaliação atual exige que os investidores ponderem se o potencial de crescimento a longo prazo compensa os atrasos nas entregas e a pressão sobre os custos no curto prazo.
A dinâmica técnica das ações também enfraqueceu. Recentemente, a cotação caiu abaixo de uma linha de tendência ascendente de longo prazo. Recuperou ligeiramente nas últimas três semanas, mas, em meados de setembro, tinha descido para perto do limite inferior do canal de Keltner, sinal de forte pressão vendedora naquele momento. Após a recuperação, ainda não voltou a superar a antiga linha de tendência e continua abaixo da média móvel de 200 dias.
A FANUC mantém vantagens como tecnologia de automação consolidada, um balanço sólido e dividendos regulares. No curto prazo, porém, a conversão mais lenta das encomendas, os custos de aprovisionamento mais elevados, o aumento do investimento de capital e o prémio de avaliação são os principais fatores a acompanhar.